Gastronomia por Roberta Sudbrack
26/02/2008 ..
Poucas palavras... ou nenhuma?
Permitam-me iniciar a narrativa dos acontecimentos vividos - com imensa emoção - pela “Delegação Brasileira do quiabo” em Santiago de Compostela, sem nenhuma palavra... Ou seja, exatamente como comecei a minha aula no Fórum Gastronômico da Espanha na semana passada. Acredito firmemente que certas emoções não se constroem com palavras, mas através de pequenos gestos, sutilezas, delicadezas e percepções.
O filme a seguir foi apresentado – e elogiado! - no Fórum Gastronômico da Espanha 2008, antes do início da nossa aula, onde com um orgulho à flor da pele, apresentamos as sensações mais do que modernas produzidas pela cozinha de alma, através do nosso astro maior: o quiabo. O diretor dessa pérola se chama Yuri Samico, e o seu caminho - assim como o do quiabo e de suas sementes, o nosso caviar nacional, hoje astros internacionais - já tem rumo certo. Eu acredito - e como poderia deixar de acreditar? – que quando as primeiras linhas de um caminho são desenhadas com o lápis da emoção, da delicadeza e principalmente da verdade, certamente o trajeto será único.
Eis o vídeo
Até!
28/02/2008 ..
Depois do silêncio...
Silêncio absolutamente necessário para assentar os sabores. Sempre digo que a comida precisa de descanso, é nessa etapa que ela concentra, respira, reage. Enquanto estamos manipulando o alimento, lidando com suas energias, trabalhando o seu conceito ou investigando a sua essência, tudo fica meio fora de ordem. Ninguém pode prever o resultado, que tanto pode ser espuma quanto concentrado. É preciso um tempo de descanso, um tempo para que as energias, a essência e a lucidez possam ser retomadas. Um tempo de sabedoria, quando o verdadeiro sentido da palavra cozinhar se apropria da situação.
A verdadeira cozinha é feita de momentos muito intensos, sensações muito profundas. Da alegria à tensão, da euforia ao desespero, da frustração às conquistas, das angústias aos desejos. Desejo de que o universo finalmente conspire a nosso favor, e que a sensação de final de noite possa ser sempre a de missão cumprida. Mas estará a missão realmente cumprida mesmo depois de uma noite na qual as execuções chegaram o mais próximo possível do “quase perfeito?” Será esse o ponto de equilíbrio entre o que procuramos todas as noites na nossa doação quase absoluta? Será esse o termômetro que medirá a temperatura do nosso destempero tão necessário em certos momentos? Será essa a linha tênue entre a sanidade e a loucura, que tantas vezes cruzamos, tanto para um lado quanto para o outro, sem pedir licença?
Felizmente não! A loucura é constante, o aprimoramento deve ser também. Estagnar não combina com a alma do cozinheiro! Viver intensamente cada momento, cada etapa, cada silêncio ou desabafo, faz de nós seres perigosos! Graças a Deus! Só assim somos capazes de vôos tão ousados, de quebrar tantos paradigmas, de lutar contra e a favor do absurdo! De querer sempre mais!
O importante, para que não deixemos de ser considerados seres perigosos, é que mesmo que o universo nos presenteie com a sensação de missão cumprida voltemos sempre no dia seguinte à procura da alegria, da tensão, da euforia, do desespero, do desejo, da frustração, da conquista e até das angústias que ficaram trancadas na cozinha à nossa espera! Por que sem elas, somos apenas seres comuns.
Até!
29/02/2008 ..
Mais do mesmo... e boas novas!
Esse assunto há que render, afinal, momentos assim não passam simplesmente. Ficam. Pensando nisso e na curiosidade de vocês, inicio hoje o meu diário de bordo sobre os dias da “equipe brasileira do quiabo na Espanha”! Teremos vários capítulos, claro, como convém às boas novelas! Mas poucas palavras, como também convêm aos grandes feitos!
Por hoje deixo mais uma foto da nossa aula no Fórum Gastronômico da Espanha, onde como vocês podem ver, o quiabo foi o astro maior! Literalmente!

Quanto às novas, finalmente na segunda-feira lançaremos na casinha laranja à beira do canal a nossa coleção de tendências gastronômicas para 2008. Todo ano elegemos um tema e um ingrediente. Ingrediente esse que passamos o ano inteiro debruçados em cima, pesquisando, estudando, decifrando, traduzindo. Esse ano o tema da nossa coleção será: fanfarra. E o ingrediente ao qual nos entregaremos de corpo e alma durante todo o ano será: o maxixe!
Se vai dar samba, pagode, chorinho ou rock and roll, ainda não temos a menor idéia!
Até!
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